Ciclo pecuário entra em transição e pede estratégia
Análise técnica aponta reação nos preços, enquanto parte da cadeia ainda lida com oferta elevada de animais
Fase de transição do ciclo pecuário exige mais estratégia do produtor rural. Foto: Famasul / Divulgação
Análise do Departamento Técnico da Famasul mostra que Mato Grosso do Sul atravessa uma fase de transição no ciclo pecuário. O Estado começa a sair do período de baixa e avança gradualmente em direção a uma nova fase de alta.
Nesse momento, os preços iniciam reação, mas a oferta de animais ainda permanece elevada, reflexo das decisões produtivas adotadas nos últimos anos. O mercado exibe sinais positivos, porém as margens seguem pressionadas em parte da cadeia.
Cria reage, recria e engorda sentem primeiro
Os efeitos desse movimento variam conforme o sistema produtivo. Na cria, o cenário já se mostra mais favorável. A valorização do bezerro aumenta a receita e indica perspectivas melhores no médio prazo. Ainda assim, a retenção de fêmeas exige cautela, principalmente em propriedades com limitações de capital, pastagem ou estrutura.
Nos sistemas de recria e terminação, o impacto é mais desafiador no curto prazo. O preço dos animais de reposição sobe antes da valorização plena da arroba do boi gordo, o que comprime as margens. Esse descompasso caracteriza a fase de transição do ciclo.
Segundo a Famasul, o Estado já superou o fundo do ciclo, marcado por preços deprimidos e descarte acelerado de fêmeas. No entanto, ainda não ingressou totalmente na fase de alta, que pressupõe redução mais clara no abate de matrizes e recomposição consistente do rebanho.
“O cenário atual é compatível com uma fase de inflexão, em que os preços começam a reagir antes que as mudanças biológicas na oferta se materializem plenamente”, afirma Diego Guidolin, consultor em pecuária do Departamento Técnico da Famasul.
Histórico explica a virada do ciclo
Entre 2019 e 2021, os preços da arroba e dos animais de reposição ficaram elevados, o que estimulou a retenção de fêmeas e a expansão do rebanho. A partir de 2022, o abate de fêmeas cresceu e atingiu participação próxima ou superior a 49% do total, patamar associado às fases de baixa.
Esse movimento reduziu o rebanho estadual, que passou de mais de 20,5 milhões de cabeças em 2017 para cerca de 17,2 milhões em 2023.
Nos anos recentes, os indicadores começaram a mudar. Em 2024 e 2025, o abate de fêmeas ainda se manteve elevado, mas houve estabilização e leve recuperação do rebanho. Ao mesmo tempo, a arroba do boi gordo alcançou R$ 306,93 até novembro, enquanto o bezerro chegou a R$ 2.658,03, sinalizando expectativa de restrição futura na oferta.
“Mesmo antes de uma redução expressiva no abate de fêmeas, o encarecimento da reposição indica mudança de percepção dos agentes de mercado, o que historicamente antecede a consolidação da fase de alta do ciclo”, destaca Guidolin.
Volatilidade cresce e comercialização vira peça-chave
Nas fases de transição e de alta, os preços tendem a melhorar, mas também ficam mais voláteis. Oscilações ocorrem mesmo em cenários positivos, influenciadas por oferta momentânea, exportações e condições econômicas externas.
Nesse contexto, a comercialização assume papel estratégico. No mercado físico à vista, o risco de oscilação recai totalmente sobre o produtor. Já contratos a termo oferecem previsibilidade ao permitir a fixação antecipada de preço, volume e data de entrega.
O mercado futuro possibilita proteção contra quedas por meio do hedge, enquanto as opções funcionam como um seguro de preço mínimo, garantindo o direito de venda por valor previamente definido.
Essas ferramentas ganham importância para sistemas de recria e engorda, mais expostos ao aumento dos custos de reposição. Ao alinhar custos e preços de venda, o produtor reduz riscos e amplia a previsibilidade.
“O produtor que interpreta corretamente o ciclo e ajusta sua estratégia produtiva e comercial tende a atravessar esse período com mais segurança e competitividade”, reforça o consultor.
O momento exige maior profissionalização na gestão de preços. O cenário cria oportunidades, mas também demanda planejamento e uso consciente das ferramentas de comercialização, preparando o sistema produtivo para as próximas fases do ciclo.
